terça-feira, 3 de abril de 2012

Love is a shitty, big, fat lie.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Funeral


Pegou a mãozinha sem vida, pálida, ensanguentada. Lembrou dos dedinhos finos e brancos, de gente loira, de como achava engraçado o jeito que ela coçava o nariz ou como não conseguia atravessar a rua sem dar as mãos.

Eram três da manhã quando o telefone tocou. Joana mal conseguia falar. Disse que Alice tinha sido encontrada com treze facadas, na quadra de futebol do prédio onde morava. Sempre teve pressão baixa, jamais conseguiria chegar ao hospital com vida. Foi parar no IML, e era para lá que Joana e Elisa estavam indo. Susana já havia embarcado no avião, chegaria em algumas horas. Os pais de Alice também estavam a caminho.

O dia amanheceu quando Joana chegou em Brasília. Estacionou o carro e pediu para Elisa dirigir, porque não conseguiria depois dos duzentos quilômetros que percorrera em uma desesperada hora e meia. Os olhos mais vermelhos que os cabelos, não acreditando no que estava prestes a ver.

Entraram. Elisa olhou para Joana e ficou se perguntando se ela já não tinha entrado em um lugar como aquele na faculdade de medicina. O chão imundo, barulho de moscas, sangue e cheiro de gente morta misturada. A luz vinha da porta por onde entraram e das janelas, a mais de dez metros de altura.

Os corpos estavam ali, ensacados como os iguais que somos todos na morte. Joana chorava quietinha, abraçada em Elisa, que parecia não entender direito que aquilo estava acontecendo. Entre os iguais, a mãozinha esquerda pendurada de lado denunciou onde a amiga estava. Olhou fixo, esperando o legista indicar o corpo.

Aproximaram-se. O plástico ainda tinha sangue, a mão estava machucada. O esmalte da mesma cor se confundia com o restante. Alice gostava muito de pintar as unhas bem compridas de vermelho, que acabavam quebrando de tão fininhas que eram.

Joana escondeu os olhos com a mão direita. Elisa, como a gente vai olhar no rosto da Susana, quando ela chegar? E falar com os pais da Alice? Como vai ser daqui pra frente?

Elisa pegou Joana pela mão e saiu de lá. Fechou a porta. Ficou segurando a mão da amiga, olhando para o chão.

Joana. A Alice morreu sabendo que os pais a amavam, que você a amava, que a Susana era a melhor amiga dela. Me diz, Joana. Me diz como é que eu vou contar pra ela que mesmo depois daquela briga horrível, mesmo depois de tanto tempo sem nos falarmos, eu ainda a conto como grande amiga? Como eu vou dizer pra Alice, eu te amo apesar de tudo?

Recebeu o olhar tristonho de Joana para, enfim, as lágrimas quentes chegarem.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Uma carta

Querido,

Preciso te contar, meu tão querido, o que você me fez. Quero crer que você fez tudo isso sem ver, sem perceber, e sem a menor intenção. Na sua cabeça, você estava certo e foi isso que importou por muito tempo. Mas querido, olha como você me fez. Queria que eu fosse tão boa quanto você, uma perfeita cópia sua. E você jamais precisou de elogios ou de aprovação, e não importa se alguém tente achar algum defeito seu: ele não existe. Já eu... Bom, eu sou desgrenhada como uma bruxinha, a mais gorda da sala, o meu perfume é fedido e é inclusive por isso que eu fui achada na lata de lixo. Por alguns anos eu não tinha coragem de me sentar ao seu lado, porque você tinha nojo do meu cabelo. Eu dirijo mal como você, sou misantropa como você, traiçoeira como você. Não me importo com as vontades dos outros, como você. E por isso, devo ser punida.

Mas o fato, meu querido, é que meu pior medo sempre foi decepcionar você. E eu vivia fazendo isso, o tempo todo. Quando eu não acertava uma cesta do garrafão, quando eu não aprendi matemática, quando eu não aprendi biologia. Mais tarde, não importou que eu tivesse aprendido bem as duas matérias, além de física e química. Muito menos que eu fosse craque em história, geografia, inglês, português e literatura. Você sempre soube mais.

Perdoa, querido, mas a culpa é quase toda sua se eu nunca fui um monstro feio e gordo e sempre pensei isso de mim. Se algum dia eu me achei muito burra e incapaz (e olha, foram vários dias), a culpa é sua. Eu nunca fui boa o suficiente, nem para mim, nem para você. E enquanto eu não for um ser perfeito, eu não serei um ser completo, e aí você não pode permitir que eu me torne uma adulta.

O momento mais feliz da minha vida foi o meio sorriso e o abraço que eu ganhei de você quando passei no vestibular. Um ano depois, foi o pior momento da história do meu universo,você disse que se envergonhava de ter alguém como eu em casa.

O mais assustador é que você nunca está errado. Mas o seu problema é que você sempre age de maneira errada.

Por mais de duas décadas eu me orgulhei dos seus acertos e perdoei os seus erros, e tudo que te peço agora é que você faça o mesmo por mim. Por favor, me deixa ser.

Sua,

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Náusea

Preciso dizer tudo. Mas tudo é uma série de coisas que vão me ocorrendo muito rápido e nem meus dedinhos bem treinados pelo mestre datilógrafo (aulas que papai me obrigou a fazer aos 11 anos) conseguem acompanhar. Mas a sensação é sempre a mesma - quando não piora. Pior que a pior das culpas, mais doído que ver o Mohammad morrendo afogado. Vontade de que tudo se encha d'água à minha volta, como no (não) suicídio da Laura Brown. Vontade de - como um colega definiu maravilhosamente bem - explodir em mil pedacinhos, o que é mais que vontade de simplesmente sumir. É um desejo profundo de deixar de existir, mas isso não significa vontade de morrer. Dura um instante apenas, ou vários deles repetidamente, mas prometo que é bem rápido.

Isso que se instalou no peito é uma vontade de dizer o que já foi dito milhões de vezes. Mas não adianta dizer, parece, porque nada se resolve. Dizer cansa quem diz e cansa quem ouve e, embora o silêncio não seja a decisão mais sábia, é a mais fácil. Fica só esse nó entalado na garganta, tão apertado que é quase impossível dar bom dia à vizinha mais simpática. Posso viver com isso, acho.

E os olhos, ah, parece que tem uma sombra azul Juliette Binoche em cima deles. Não é o suficiente para cegar, mas é o bastante para tornar tudo turvo, turbulento e doloroso o suficiente para querer esquecer. Esse líquido grosso que está ao redor dos olhos é igual ao da culpa, e acho que é porque já não desce mais nada deles. Não que isso seja exatamente um problema, nunca fui dada a esse tipo de coisa. Quase uma Amanda Woods.

Durante a semana, nós éramos Ozzie e Harriet.

Durante a semana, nós somos Francesca e Richard Johnson.

Vida que segue.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Honey Pie, dos meninos

She was a working girl
North of England way
Now she's hit the big time
In the U.S.A.
And if she could only hear me
This is what I'd say.

Honey pie you are making me crazy
I'm in love but I'm lazy
So won't you please come home.

Oh honey pie my position is tragic
Come and show me the magic
of your Hollywood song.

You became a legend of the silver screen
And now the thought of meeting you
Makes me weak in the knee.

Oh honey pie you are driving me frantic
Sail across the Atlantic
To be where you belong.

Honey pie, come back to me.

I like it like that,
Oohh, I like this kinda, hot kind of music.
Hot kind of music, play it to me,
Play it to me Hollywood blues

Will the wind that blew her boat
Across the sea
Kindly send her sailing back to me.

Honey pie you are making me crazy
I'm in love but I'm lazy
So won't you please come home.

sábado, 5 de setembro de 2009

Gota d'água, de Francisco

Já lhe dei meu corpo
Minha alegria
Já estanquei meu sangue
Quando fervia
Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta
Olha a gota que falta
Pro desfecho da festa
Por favor...

Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d'água

domingo, 9 de agosto de 2009

As moscas

Aprendi algumas coisas no ensino médio. A mais relevante delas foi que quase nada daquilo me serviria um dia. Mas ainda assim, sei até hoje que um triângulo pitagórico é três quatro e cinco, que F é flúor e não fósforo, que canção de maldizer é mais malvada que a canção de escárnio, que força centrífuga é uma maluquice que não existe pra você vestibulando, que na Revolução Francesa a média de guilhotinadas foi de 126 por dia. Sei também que as moscas têm inúmeros olhos.


Inúmeros, inúmeros. Tantos que cansei de contar. Uns olhos que amam muito, mas que muito antes disso, que vigiam constantemente. Cada olho de cada mosca vigia cada gesto seu. Cada olhar, cada reação, cada comentário, cada tom de voz. Analisam suas risadas e expressões. E não analisam para chegar a alguma conclusão, mas apenas para comprovar uma tese. Se você não ri de uma piada de sexo, por exemplo, você é um hipócrita fingido. Se você cai na gargalhada, você merece queimar no inferno, devasso sem vergonha.

As moscas não se contentam em vigiar cada centímetro seu, nem em criar uma teoria mirabolante que só existe na cabeça delas - e o mais incrível é que as teses geralmente coincidem entre si -, mas ficam zumbindo aquele zumbido interminável de mosca no seu ouvido, eu vou contar, eu vou contar, eu vou contar; ela já sabe; eu vou contar mesmo assim; mas ela já sabe; ela vai saber por mim. Se as moscas soubessem do mal que fazem a ela, será que se contentariam em zumbir apenas entre si?

Posso estar enganada, mas não. Essa família de moscas tem a característica de ter um meio coração, um coração que funciona aqui e ali, que funciona quase sempre que precisa, mas que por algum motivo ainda desconhecido à ciência, falha em se tratando de olhar um grande amor. Um grande amor que não seja o seu, veja bem. Tudo bem você querer se apaixonar por uma profissão (mas só se for a delas), por um livro (mas só se for o delas), por uma foto (mas só se for a delas), por um quadro (mas só se for o delas), por um gosto musical (mas só se for o delas), enfim. Só pode se apaixonar por algo se seus olhinhos sem fim concordarem.

Do amor, as moscas só entendem do seu. E do da mocinha da novela, que é fácil fácil de entender.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

É.


- Melancia.
- Nããão, banana.
- Olha, é melancia.
- Não, é banana.
- Melancia.
- Ba-na-na. Olha bem. É banana.
- Presta atenção. É vermelha, redonda, tem casca verde e sementinhas pretas e brancas. Melancia.
- Eu te garanto que isso é uma banana arredondada, vermelha da casca verde. E com sementes.
- Repito, melancia.
- Insisto, banana.
- Eu acho que é melancia, mas se você diz...
- É banana.
- Juraria isso na frente do tribunal? Eu poderia jurar que é banana se você jurar junto.
- Fechado.
- Banana, então.



sexta-feira, 26 de junho de 2009

Conversa de ônibus

Mulato claro - Que é isso na sua cara?

Mulato escuro - Eu não sei... Mas não é pano branco não!

Mulato claro - Éééé... Pano branco não é assim não.

Mulato escuro - E coça. Isso aqui não coça não.

Mulato claro - Cara, se você pudesse estudar em uma escola particular, onde estudaria? Se eu pudesse eu estudava nessa aqui, ó...

Mulato escuro - Puxa, eu queria estudar no Leonardo...

Mulato claro - Ah, o Leonardo é chato... Não tem piscina, nem parquinho. Não tem nada pra fazer. Você é do Vasco, cara?

Mulato escuro - Sou...

Mulato claro - Eca! Vasco é feio. E foi rebaixado.

Mulato escuro - E você, torce pra que time?

Mulato claro - Palmeiras!

Mulato escuro - ECA! Você sabia que em toda a história do Vasco essa foi a única vez que ele foi rebaixado? O Palmeiras foi rebaixado várias vezes. Você tem alguma coisa do Palmeiras?

Mulato claro - Não... Minha mãe não compra.

Mulato escuro - Eu tenho esse estojo, um chinelo, vários adesivos, um lençol, um travesseiro e um chaveirinho que eu tenho lá em casa...

Mulato claro - Minha vó vê o jogo com a gente, é éngraçado, sabe, cara? Ela fica gritando "vai, meu filho, vai meu filho" pra todos os jogadores, até pra quem tá jogando contra. Meu tio tem que avisar que... que tipo assim aquele lá é argentino. Mas ela não tá gagá não, sabe? Ela só não é muito ligada em futebol.

Mulato escuro - Sei... Você tem todos os avós?

Mulato claro - Eu tenho minha vó minha bisavó meu avô e o meu avô.

Mulato escuro - Eu tenho minha vó minha bisavó minha bisavó, meu avô e... Não, não... Minha avó minha bisavó minha bisavó meu avô e meu avô. Pronto.

Mulato claro - Você tem pai?

Mulato escuro - Tenho. Você tem?

Mulato claro - Tenho. E mãe, você tem?

Mulato escuro - Tenho. Você sabe do que sua mãe trabalha?

Mulato claro - Ela é... Doméstica. Meu pai é porteiro. Olha ali o Banco Central! Você sabe onde fica a Casa da Moeda?

Mulato escuro - No Ministério da Fazenda, é claro.

Mulato claro - Mas onde é que fica o Ministério da Fazenda?

Mulato escuro - Ali naqueles prédios, ó.

Mulato claro - Iiiiih, olha lá aquele cara. Tá bêbado tentando ganhar dinheiro no sinal.

Mulato escuro - Pois é, fica fingindo que tá sambando...

Mulato claro - Não, ele tá sambando. Fingindo é quando você tá fazendo bagunça e a professora entra na sala e aí você finge que não tava fazendo nada. Entendeu? Ele não tá fingindo que tá sambando, ele tá sambando. Mas tá sambando errado.

Mulato escuro - Eu não dou dinheiro. Só quando tá na cadeira de rodas, sabe?

Mulato claro - Ou quando tem a perna fininha, né... Porque aí a gente vê que precisa mesmo... Se bem que não dá pra pedir pra quem tá na cadeira de rodas levantar pra provar que não dá conta... Porque eles não dão conta...

Mulato escuro - Eu não tenho preconceito.

Mulato claro - Nem eu... De quem você tem mais preconceito, de deficiente, de negro ou de homossexual?

Mulato escuro - Eu não tenho nada contra deficiente, nem contra negro... É que nem tratar igual, sabe? Lá no meu bairro tem um menino que chama João mas a gente chama ele de Tizil.

Mulato claro - Hahahahahahaha! Lá na minha rua também tem um Tizil! Mas a gente chama ele assim porque ele sabe que é brincadeira e a gente não tem preconceito.

Mulato escuro - Pois é. Mas de homossexual... Cara, eu acho muito errado.

Mulato claro - Eu também tenho preconceito.

Mulato escuro - Não é preconceito... É que eu não gosto, sabe? Longe de mim tá tudo certo.

Mulato claro - É... É tão esquisito, três milhões de pessoas naquele negócio de Parada Gay...

Mulato escuro - É, cara! É errado! Não tem nada de errado em ser negro ou em ser deficiente, né, você nasce assim e não tem culpa! Mas ser homossexual, sei lá... Eu não gosto.

Mulato claro - Eu nunca pensei em ser isso, sabe... Homossexual.

Mulato escuro - Não! Nem eu! Eca!

Mulato claro - Chegou o meu ponto. Sabe chegar direito até o seu?

Mulato escuro - Eu pergunto pro motorista.

Mulato claro - Até mais, cara.

Mulato escuro - Tchau...

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Você me machuca.

Você me machuca. Você me machuca e não faz ideia de que o faz, pelo simples fato de que eu jamais vou te dizer isso. Você vai rir na minha cara e me dizer pra deixar de levar tudo tão a sério. Por mim, você não vai mudar. Sei disso porque sei que as pessoas não mudam, jamais, nem mesmo por quem se ama. As pessoas não mudam.

Sabe, já me disseram pra não te levar sempre a sério. Essa mesma pessoa já me disse pra não guardar esse tipo de coisa pra mim, pra não ficar com o rancor amordaçado aqui no peito mas olha, não dá pra te contar isso. Você vai rir na minha cara. Vai fazer sua careta tão fofinha e convincente de sou-super-legal-todo-mundo-me-ama-incondicionalmente-e-eu-sempre-tenho-a-razão-em-tudo. Vai dizer que eu é que sou agressiva, eu que te ataco, vai me perguntar, ai menina porque você é assim? E isso me dói, dói, dói, me dói inteirinha, me rasga os órgãos e me aperta o cérebro e me faz querer gritar com você mas eu finjo de surda e penso que eu ainda te amo, que eu ainda te quero bem e que o que você disse não é nada e que eu é que sou a exagerada da história.


O engraçado é que eu faço isso porque você me pediu. Pediu para não ser assim, não te atacar, não ser agressiva. Nunca percebeu que toda vez que eu te atacava, era na verdade um contra-ataque. Uma defesa. Pois agora você me pediu, e estou sem defesas, sem um escudo cheio de espinhos para me proteger de você. E você continua me machucando, e eu acho que é porque eu não te pedi para não ser assim, ou porque você entendeu que é assim que deve me tratar, ou porque você acha o máximo me tratar assim. Não importa, o fato é que você faz isso.


Me desculpa por dizer isso assim, meu bem-querer, não quero que você nunca descubra que a pessoa deste texto é você, e se você descobrir, espero o seu perdão. Mas olha, você me machuca ao ponto de eu escrever um texto só sobre isso.

Você me machuca demais.


Eu te amo. Me perdoa?

sábado, 16 de maio de 2009

Caio e Zézim

Me pediram para escolher um texto para salvar caso o mundo acabe no próximo minuto e eu só possa salvar um. Pesarosa de ter que jogar fora tanta riqueza que existe pelo mundo, escolhi esta carta de Caio Fernando Abreu a seu amigo Zézim, sobre o desafio que é escrever. Para que assim, quem for escrever alguma coisa depois do fim do mundo, já vai avisado de como são as coisas.


Porto, 22 de dezembro de 1979

Zézim,


cheguei hoje de tardezinha da praia, fiquei lá uns cinco dias, completamente só (ótimo!), e encontrei tua carta. Esses dias que tô aqui, dez, e já parece um mês, não paro de pensar em você. Tou preocupado, Zézim, e quero te falar disso. Fica quieto e ouve, ou lê, você deve estar cheio de vibrações adeliopradianas e, portanto, todo atento aos pequenos mistérios. É carta longa, vai te preparando, porque eu já me preparei por aqui com uma xícara de chá Mu, almofada sob a bunda e um maço de Galaxy, a decisão pseudointeligente.


Seguinte, das poucas linhas da tua carta, 12 frases terminam com ponto de interrogação. São, portanto, perguntas. Respondo a algumas. A solução, concordo, não está na temperança. Nunca esteve nem vai estar. Sempre achei que os dois tipos mais fascinantes de pessoas são as putas e os santos, e ambos são inteiramente destemperados, certo? Não há que abster-se: há que comer desse banquete. Zézim, ninguém te ensinará os caminhos. Ninguém me ensinará os caminhos. Ninguém nunca me ensinou caminho nenhum, nem a você, suspeito. Avanço às cegas. Não há caminhos a serem ensinados, nem aprendidos. Na verdade, não há caminhos. E lembrei duns versos dum poeta peruano (será Vaflejo? não estou certo): “caminante, no hay camino, se hace camino al andar”.


Mais: já pensei, sim, se Deus pifar. E pifará, pifará porque você diz “Deus é minha última esperança”. Zézim, eu te quero tanto, não me ache insuportavelmente pretensioso dizendo essas coisas, mas ocê parece cabeça-dura demais. Zézim, não há última esperança, a não ser a morte. Quem procura não acha. É preciso estar distraído e não esperando absolutamente nada. Não há nada a ser esperado. Nem desesperado. Tudo é maya / ilusão. Ou samsara / círculo vicioso.


Certo, eu li demais zen-budismo, eu fiz ioga demais, eu tenho essa coisa de ficar mexendo com a magia, eu li demais Krishnamurti, sabia? E também Allan Watts, e D. T. Suzuki, e isso freqüentemente parece um pouco ridículo às pessoas. Mas, dessas coisas, acho que tirei pra meu gasto pessoal pelo menos uma certa tranqüilidade.


Você me pergunta: que que eu faço? Não faça, eu digo. Não faça nada, fazendo tudo, acordando todo dia, passando café, arrumando a cama, dando uma volta na quadra, ouvindo um som, alimentando a Pobre. Você tá ansioso e isso é muito pouco religioso. Pasme: acho que você é muito pouco religioso. Mesmo. Você deixou de queimar fumo e foi procurar Deus. Que é isso? Tá substituindo a maconha por Jesusinho? Zézim, vou te falar um lugar-comum desprezível, agora, lá vai: você não vai encontrar caminho nenhum fora de você. E você sabe disso. O caminho é in, não off. Você não vai encontrá-lo em Deus nem na maconha, nem mudando para Nova York, nem.


Você quer escrever. Certo, mas você quer escrever? Ou todo mundo te cobra e você acha que tem que escrever? Sei que não é simplório assim, e tem mil coisas outras envolvidas nisso. Mas de repente você pode estar confuso porque fica todo mundo te cobrando, como é que é, e a sua obra? Cadê o romance, quedê a novela, quedê a peça teatral? DANEM-SE, demônios. Zézim, você só tem que escrever se isso vier de dentro pra fora, caso contrário não vai prestar, eu tenho certeza, você poderá enganar a alguns, mas não enganaria a si e, portanto, não preencheria esse oco. Não tem demônio nenhum se interpondo entre você e a máquina. O que tem é uma questão de honestidade básica. Essa perguntinha: você quer mesmo escrever? Isolando as cobranças, você continua querendo? Então vai, remexe fundo, como diz um poeta gaúcho, Gabriel de Britto Velho, “apaga o cigarro no peito! diz pra ti o que não gostas de ouvir! diz tudo”. Isso é escrever. Tira sangue com as unhas. E não importa a forma, não importa a “função social”, nem nada, não importa que, a princípio, seja apenas uma espécie de auto-exorcismo. Mas tem que sangrar a-bun-dan-te-men-te. Você não está com medo dessa entrega? Porque dói, dói, dói. É de uma solidão assustadora. A única recompensa é aquilo que Laing diz que é a única coisa que pode nos salvar da loucura, do suicídio, da auto-anulação: um sentimento de glória interior. Essa expressão é fundamental na minha vida.

Eu conheci razoavelmente bem Clarice Lispector. Ela era infelicíssima, Zézim. A primeira vez que conversamos eu chorei depois a noite inteira, porque ela inteirinha me doía, porque parecia se doer também, de tanta compreensão sangrada de tudo. Te falo nela porque Clarice, pra mim, é o que mais conheço de GRANDIOSO, literariamente falando. E morreu sozinha, sacaneada, desamada, incompreendida, com fama de “meio doida”. Porque se entregou completamente ao seu trabalho de criar. Mergulhou na sua própria trip e foi inventando caminhos, na maior solidão. Como Joyce. Como Kaflka, louco e só lá em Praga. Como Van Gogh. Como Artaud. Ou Rimbaud.

É esse tipo de criador que você quer ser? Então entregue-se e pague o preço do pato. Que, freqüentemente, é muito caro. Ou você quer fazer uma coisa bem-feitinha pra ser lançada com salgadinhos e uísque suspeito numa tarde amena na Cultura, com todo mundo conhecido fazendo a maior festa? Eu acho que não. Eu conheci/conheço muita gente assim. E não dou um tostão por eles todos. A você eu amo. Raramente me engano.


Zézim, remexa na memória, na infância, nos sonhos, nas tesões, nos fracassos, nas mágoas, nos delírios mais alucinados, nas esperanças mais descabidas, na fantasia mais desgalopada, nas vontades mais homicidas, no mais aparentemente inconfessável, nas culpas mais terríveis, nos lirismos mais idiotas, na confusão mais generalizada, no fundo do poço sem fundo do inconsciente: é lá que está o seu texto. Sobretudo, não se angustie procurando-o: ele vem até você, quando você e ele estiverem prontos. Cada um tem seus processos, você precisa entender os seus. De repente, isso que parece ser uma dificuldade enorme pode estar sendo simplesmente o processo de gestação do sub ou do inconsciente.


E ler, ler é alimento de quem escreve. Várias vezes você me disse que não conseguia mais ler. Que não gostava mais de ler. Se não gostar de ler, como vai gostar de escrever? Ou escreva então para destruir o texto, mas alimente-se. Fartamente. Depois vomite. Pra mim, e isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar um dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta. E eu acho — e posso estar enganado — que é isso que você não tá conseguindo fazer. Como é que é? Vai ficar com essa náusea seca a vida toda? E não fique esperando que alguém faça isso por você. Ocê sabe, na hora do porte brabo, não há nenhum dedo alheio disposto a entrar na garganta da gente.


Ou então vá fazer análise. Falo sério. Ou natação. Ou dança moderna. Ou macrobiótica radical. Qualquer coisa que te cuide da cabeça ou/e do corpo e, ao mesmo tempo, te distraia dessa obsessão. Até que ela se resolva, no braço ou por si mesma, não importa. Só não quero te ver assim engasgado, meu amigo querido.


(...)


Let me take you down

cause I’m going to strawberryfields
nothing is real, and nothing to get hung about
strawberry fields forever
strawberry fields forever
strawberry fields forever

Isso é o que te desejo na nova década. Zézim, vamos lá. Sem últimas esperanças. Temos esperanças novinhas em folha, todos os dias. E nenhuma, fora de viver cada vez mais plenamente, mais confortáveis dentro do que a gente, sem culpa, é. Let me take you: I’m going to strawberry fields.


Me conta da Adélia.


E te cuida, por favor, te cuida bem. Qualquer poço mais escuro, disque 0512-33-41-97. Eu posso pelo menos ouvir. Não leve a mal alguma dureza dita. É porque te quero claro. Citando Guilherme Arantes, pra terminar: “Eu quero te ver com saúde/sempre de bom humor/e de boa vontade”.


Um beijo do


Caio



quinta-feira, 14 de maio de 2009

Keith e as baratas

Os maias erraram. O mundo não acabou em 2012. Quem acertou foi um desconhecido pajé brasileiro, que previu o fim do mundo que conhecemos para que um bruxo ressuscitasse e governasse seus fiéis súditos. Mas ninguém nunca deu atenção às profecias dos índios brasileiros porque eles jamais ligaram para essa onda de construir cidades como os maias, astecas e incas. Aí nunca despertaram fascínio internacional, ninguém nunca quis saber o que o pajé maluco falou e o mundo acabou sem ninguém se preparar para isso.

Mas a nossa história começa três milhões de anos antes disso. Começa no ano 2020, quando um nerd viciado em Star Wars desenvolveu finalmente o congelamento em carbonita. Aquele que o Darth Vader apronta com o Han Solo no Episódio V. Aí virou moda, teve muita perua pagando caro para manter o corpinho milimetricamente recauchutado durante os anos. Vários nerds trabalharam duro e desenvolveram sistemas operacionais geniais para descolar um troco e ir fazer parte da odisséia de Han Solo. Caro, muito caro.

Só que para Keith Richards, desde 1964, dinheiro nunca foi problema. Contando 76 anos completos e um corpinho sem idade definida, caprichosamente esculpido em quase seis décadas de estrada, ele resolveu entrar nessa onda de carbonitamento de congelada. Queria, ele dizia, manter uma viagem por três milhões de anos. O tempo máximo de permanência nas cápsulas de carbonita do jovem nerd.

Keith sabia que ficaria em uma viagem maravilhosa por três milhões de anos. Sabia que acordaria feliz depois de tanto tempo nessa onda. O que ele não sabia é que quando ele abrisse a cápsula, serelepe e pronto para outra, ele encontraria o mundo sem vida. O pajé acertara e o mundo vivo acabara em 3002020, segundos antes de Keith abrir sua cápsula.

Não que as cápsulas fossem proteger as pessoas ou qualquer outro ser vivo da explosão. O Keith que era imune a ela. Tendo passado por tanta coisa nessa vida, um estouro nuclear era fichinha.

Muito sozinho e com uma larica danada, Keith começou a andar pela cidade a procura de um supermercado. Achou um prédio enorme e bem suprido e ficou contente. Teria comida pelo resto da vida. E é óbvio que prazo de validade e intoxicação alimentar não seriam coisas que o afetariam.

Comendo gulosamente um pacote família de Doritos, Keith viu uma manchinha no chão alvo do supermercado. Uma barata. Tão sozinha, pobrezinha, mais perdida ali que barata tonta. A piadinha sádica não foi intencional, a coitadinha estava realmente aflita. Keith era um cara legal e deixou ali uma mão cheia de Doritos para a nova amiguinha.

Ela saiu correndo. Que pena, não quer papo. Ela parecia ser interessante, pensou Keith. Nosso herói mal sabia o que estava por vir: uma legião de baratas, famintas com seus olhinhos tristes e carentes. Era demais para ele. Saiu correndo pelo supermercado abrindo os pacotes família de Doritos, Ruffles, Cebolitos e todos os outros salgadinhos que ali marcavam presença.

E nesse glorioso dia, o dia do fim do mundo, três milhões de anos depois de seu tempo, Keith Richards foi proclamado o Rei das Baratas. E, como todos vocês já puderam concluir, o Rei do Mundo. Sem perspectiva de sucessão, é bom avisar.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Depois daquele sétimo mês

As meninas pequenas brincavam ao seu redor. Cinco, quatro e dois anos. Apenas a mais velha era loira e tinha permissão de usar cabelos compridos. As duas moreninhas tinham cabelo de menino. A do meio não gostava nem um pouco disso.

Ela tinha ainda um barrigão à espera. Seria o último bebê, e se fosse menino, ganharia o nome do pai. Largara o emprego de professora para cuidar de suas crias. Era uma mãe severa, mas muito amorosa. O marido era um homem extremamente sério, mas era o pai mais atencioso que aqueles três anjinhos jamais poderiam ter. Um pai preocupado em criá-las para se tornarem grandes mulheres, grandes pensadoras, grandes profissionais.

Acordou naquele primeiro de abril cinzento sem acreditar na mentirinha que lhe contaram: o presidente caiu, os militares estão no poder. Os caças sobrevoando o céu da capital goiana a fizeram acreditar. Temeu pela família. O marido estava indignado e apreensivo, e quatro dias depois daquilo, ele não chegou em casa.

Não dormiu naquela noite. Sabia o que tinha acontecido. só não podia acreditar, mas sabia. Olhava aflita com os olhos verdes cansados para as meninas dormindo em paz e começava a fazer planos para o pior. Só conseguia se desesperar mais e mais.

Na manhã seguinte, recebeu uma visita do cunhado. Olha, Maria, se eles levarem o Marcello pro Rio ele não volta.

Ele não volta.

Ele não volta, eu vou ter esse bebê sozinha e as crianças não vão ter pai.

Ele não volta porque o pior vai acontecer.

Assim ela foi passando um, dois, três, quatro dias, uma semana, duas, três, um mês aflita com poucas e porcas notícias do marido, tendo pesadelos apavorantes dele sendo maltratado, judiado, ensacado e jogado no mar.

Mas Maria é uma mulher de sorte e, ao fim do sétimo mês da sua gravidez, o martírio que durou o resto da vida para tantas outras mulheres acabava. Seu homem voltava para casa e lhe assoprava os buracos do coração.

Depois daquele sétimo mês, Maria se sentava no banquinho branco do quintal para observar suas filhas brincando e rogava a Deus por um lugar onde eles tivessem paz.

Passaram-se dez anos desde aquele sétimo mês, quando finalmente eles conseguiram se mudar para Brasília e ter um pouco de sossego. Ele e as crianças. Ela jamais se recuperou completamente daquilo. Mas conseguiu, sim, ficar em paz.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Nossos olhos

Antônio Campoli era um italiano bravo. Mas é que era o costume, o jeito da época. Viera para o Brasil aos seis anos de idade, para trabalhar na lavoura, e só aprendera o português por aqui. Era um homem forte, trabalhador. Tinha olhos fundos e cansados, olhos sonolentos mesmo quando desperto, claros mas com olheiras, aqueles olhos que mais tarde seriam classificados como olhos de ressaca do mar. Involuntariamente rancorosos. Olhos de Campoli, jamais falharam.

Antônio era casado com Rosa, italiana também, mãe sóbria e responsável de treze filhos. Comandava a cozinha como toda boa italiana: fazendo uma bagunça danada e ai de quem se metesse. Os treze Campoli trabalhavam na roça de café com o pai, os olhos de Campoli e a tez europeia judiados pelo sol brasileiro que banhava a fazenda em São José do Rio Preto. A educação escolar era garantida pelas vizinhas faladeiras que iam dar aula aos treze Campoli em casa. A manutenção da tradição italiana ia além do cardápio, ao contrário do que a maioria pensa. Antônio Campoli fazia todas as refeições sozinho na sala de jantar, enquanto os treze filhos e a esposa comiam na cozinha. Almoçar juntos, só no domingo, depois da missa. Que nem na Itália.

E ali, em meados dos anos trinta, naquela tão interiorana e paulista cidadezinha cafeeira, descobriu-se que João, o Campoli número nove, tinha alergia a lactose. Nada de leite para o menino. No máximo um naco de chocolate ao dia. Naquele tempo, chocolate era algo caro e amargo, e ainda assim todo mundo queria comer. Antônio Campoli mantinha sempre uma barra enrolada em papel metálico na gaveta do seu criado mudo. Depois do almoço, chamava João e dava a ele um pedacinho e dizia para comer bem devagar. Ignorava os olhinhos de Campoli marejados de inveja dos próximos em idade ao pequeno alérgico. Era pouco chocolate para tanta criança e tamanha alergia.

O fato é que João Campoli cresceu e ficou forte. Achou por ali no interior de São Paulo uma moreninha bonita e tratou de desposá-la logo. Dona Cinha teve um filho e duas filhas, todos eles bem Campoli. Viveram os cinco em uma cidadezinha do interior, gerenciando um armazém da forma mais honesta possível, como Antônio e Rosa ensinaram a João.

Paulo, o filho mais velho do casal, quando estava para terminar o ensino médio, pediu para ir estudar fora. Medicina, pai. Deixa eu estudar até o tempo que eu ficaria no exército. Então vai, menino, e vê se passa logo nesse vestibular. Não precisou de um ano: já no meio do cursinho passou na Universidade de Brasília e para lá foi correndo.

Campoli e esquisito como sempre fora, Paulo resolveu estudar Cálculo e tirou o único dez da sala. Foi tirar satisfação com ele uma irada estudante de Engenharia Elétrica, uma moreninha de nariz arrebitado chamada Márcia. Onde é que já se viu um menino da medicina tirar dez em Cálculo? Alguns anos depois, em seu aniversário de 24 anos, a alguns metros de seu bolo com 24 veadinhos de plástico, ele fez seus olhos de Campoli ficarem ternos e pediu a moça em namoro. Mais três anos e estavam os dois casados.

Três anos depois do casório, nascia sem conhecer os bisavós a primeira neta dos Campoli e mais um par dos já familiares olhos de ressaca italiana.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Ianque, cai fora.

Mamãe quase me matou. Esbravejava que onde é que você estava até essa hora, viu o que aconteceu, diz pra mim que não estava lá, você podia ter apanhado, podia ter sido presa, menina ingrata e irresponsável!

Saiu no jornal e tudo mais. Mas também, o que ele esperava? Vindo aqui com essa pompa toda, em pleno regime militar, queria ser recebido com uma dancinha hippie de boas vindas? Fico me perguntando se ninguém avisou que todos nós enterrávamos o Azevedo com frequência, com o devido patrocínio da Arquietetura. Ninguém contou para ele do dia que os milicos cercaram o RU e não deixaram ninguém sair, e a gente jogou banana nos macacos? Bendito seja quem inventou que a sobremesa seria sempre fruta. E quem disse que naquele dia ia ser banana.

Poucos de nós eram corajosos de verdade, tipo o Honestino. A maioria era como eu, tremia igual vara verde, de raiva e de medo, ao se dirigir para a sala de aula e ter a ignorância vestida de preto vigiando a entrada. Teve também aquela história da menina grávida que em uma daquelas invasões da polícia levou uma cassetada elétrica e abortou o nenê. O bicho pegava para o nosso lado até mesmo na época da tal redemocratização.

O fato é que era um dia incerto de novembro de 1981, final de semestre, todo mundo estressado, um horror. Tinha um círculo de palestras no Dois Candangos, e aquele dia era o dia daquele crápula ianque. Pois ele não só ia dar uma palestra naquela universidade que tanto sofria com a ditadura que ele apoiava, como ela não era aberta aos estudantes.

Pífia tentativa de impedir agitação, coitados. Saiu do CA da Engenharia Civil um grupinho mínimo, portando uma faixa com os dizeres “Kissinger, go home!”. Se dirigiram ao minhocão gritando palavras de ordem e chamando quem estivesse por lá para se juntar ao grupo. Pessoas saíam das salas e aderiam àquilo que acabara se tornando uma passeata. Quando vi, desci correndo do mezanino e entrei animadíssima no meio. O que era um grupo de vinte pessoas se tornou um movimento gigantesco no minhocão.

Rumo ao Dois Candangos. Fechado, é claro. Não que isso fosse um problema. A palestra ia acabar mais cedo, só isso. Quem estava perto da entrada começou a bater nas portas e todos faziam muito barulho. Um risco danado de machucar as mãos se o vidro quebrasse, mas não aconteceu nada. O barulho era tanto que a palestra, é claro, teria que ser interrompida.

Se você estava na UnB nesse dia, não estava na passeata e quis comer um sanduíche de ovo com tomate em alguma lanchonete, foi nesse dia que você saiu tristinho de lá, porque simplesmente acabou. Compramos tudo. Fazia-se ali uma linha de produção, desencaixotando os ovos e cortando os tomates ao meio para jogar em quem viesse. Daí um pouco chegaram uns meninos correndo, com uns pregos nas mãos. Haviam furado os pneus de todos os carros oficiais. Só para garantir.

Não tardando a chegar, a polícia estacionou seu camburão ali perto e fez um corredor na entrada para os ministros, diplomatas, figurões e engravatados passarem. Era fabuloso jogar os ovos e os tomates por cima dos capacetes pretos e ver que tinha acertado algo no caminho.

Para fechar nossa tão feliz manifestação, o pessoal percebeu meio tarde demais que não tinha como pegar os carros oficiais. Chegou-se também ao consenso de que não seria cabível que o ex-secretário de Estado dos Estados Unidos, aquele pavão ianque que as autoridades brasileiras faziam questão de puxar o saco, levasse ovada. Partiram, então, para o grande e absurdamente hilário final: entraram no auditório com o camburão, colocaram o homem dentro e se mandaram sei lá para onde.

Vencemos a batalha. Ponto pra gente. E um bom banho pra esses catinguentos, por favor.

Aterrissagem

Naquele dia, ela se permitira sonhar com ele. Sonhou do dia que ele voltaria da reserva e imediatamente pediria sua mão em casamento. E ela, com um sorriso que não lhe caberia no rosto, diria que sim, sim, sim! Assim que eu fizer dezoito e que papai deixar. Então os dois se mudariam para a capital, e ela teria três lindos pimpolhos que eram a cara dele. Ali, ele arrumaria um emprego que lhe tomaria o dia todo, mas ainda assim ele teria tempo e energia para brincar com os filhos de noite e olharia ternamente para ela por cima da macarronada do jantar. Assim que as crianças dormissem, eles fariam o amor tão terno sempre que tivessem fôlego. Sonhou que envelheceriam enrugados e bonitinhos, e iriam juntinhos fazer compras no supermercado. Sonhou também que alguns meses depois que ele morresse dormindo, ela morreria de tristeza. E seriam enterrados juntos e quando ela chegasse à tumba, ele abriria os braços para guardá-la, tal como Abelardo e Heloísa.

Naquele dia, ele chegou lindo e fardado à porta da mercearia do pai dela, pediu o privilégio de falar a sós com a moça e recebeu a permissão. Ela não cabia em si de felicidade, sorrindo as sardas tímidas e os dentinhos tortos. Não havia homem mais bonito no mundo que aquele que o caminhão do exército acabara de arremessar à sua porta. Seria sim, ele, seu grande amor, a tampa da sua panela, o homem sóbrio ao seu lado na foto do casamento.

Naquele dia, ele disse que nosso amor é tão bom mas o horário nunca combina. Disse também que tinha sido bastante bom namorar com ela mas ele tinha que ganhar o mundo e provar seu valor para aquela cidade ingrata. Toma aqui a mecha ruiva do teu cabelo, guarda pra quem te queira.

Naquele dia, ele foi embora e, mesmo tendo avisado, ela era uma louca a perguntar o que é que a vida vai fazer de mim.

terça-feira, 28 de abril de 2009

O dia em que eu traí o movimento

Eu prometi que continuaria sendo eu mesma. Ele jamais me mudaria, jamais arrancaria de mim meu coração e meus pensamentos e minhas opiniões e me transformaria em uma comum, mais uma namorada gente boa que faz tudo pelo namorado só para o danadinho tirar a toalha molhada de cima da cama gentilmente ao ser requisitado.

Mas o fato, ah, meus amigos, o fato é que eu acabei sucumbindo. Sucumbi ao meu maior asco, o maior motivo de reclamações com os meninos da faculdade, aquele assunto que eu abomino e que não acredito que qualquer pessoa com o mínimo de amor próprio tem o disparate de conversar sobre. Devo, portanto, me explicar perante meu relativamente fiel público do último ano, para não perdê-los e nem ficar desacreditada.

Não era pouca coisa, vejam bem. Era briga de cachorro muito grande. O pobrezinho estava tremendo de nervoso e excitação, embrulhado que nem criança naquele tecido amarelo, branco e vermelho, como se soubesse do que iria acontecer mas ainda assim torcesse para o melhor. Me olhava ansioso enquanto eu cozinhava, ia toda hora para a cozinha para ver se o molho estava pronto. Assim que derramei a massa vermelha cuidadosamente preparada e congelada por minha mãe em cima do miojo imaculado, ele agarrou minha mão e me levou correndo para a frente da televisão, já sofrendo porque o time do coração já levara um gol.

Pronto, contei. No sábado passado eu vi um jogo de futebol do começo ao fim. Torcendo em solidariedade ao namorado entrando em desespero a cada gol que aquele goleiro incompetente levava, e ao mesmo tempo tentando reconfortá-lo. Fiz coro às suas reclamações, falando coisas horríveis sobre a mãe do juiz, sobre o sorriso amarelo e indecente do técnico do time, sobre o jogador agressivo e inútil que acabou fazendo o gol de honra, sobre minhas dúvidas quanto à heterossexualidade dos jogadores do time adversário. Ah, sim, eu fiquei nervosa, apertei forte a mão dele a cada chute a gol e quis quebrar a televisão quando o goleiro deixou passar uma, duas, três, quatro bolas.

Sim, pessoal, eu fiquei bastante próxima à histeria em um jogo de futebol.

E 2009 não é ano de Copa.

Mas não se desesperem! Eu ainda detesto futebol, prometo. Vou sempre revirar os olhos com esse papo de Ronaldo Corinthians Flamengo Verdão e sei lá mais o quê. Ainda vou assistir histericamente aos jogos da Copa, tendo minha dose de futebol mais que suficiente para quatro anos. Só não garanto que não vou mais torcer para o time do namorado de vez em quando.

Porque agora ver o coitadinho sofrendo sozinho e desamparado, sem colo (sim, por onze caras correndo atrás de uma bola), é que arranca meu coração.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Trem-fantasma

Ela calçava meu all star cor-de-rosa com as mãos morenas enquanto Heitor aprontava sem barulho atrás dela. Liege entrou na sala, emburrada porque teria que esperar pelos chocolates da Turma da Mônica até depois do almoço. A minha querida então terminou de me calçar e correu desesperada até o meu irmão, que misteriosamente havia conseguido parar em cima do armário. E então ele, querido até o último fio de cabelo castanho, entrou com os olhos verdes de tão ternos e perguntou quem é que ia ao Mutirama.

Eu! Eu! Eu! Eu! Eu mal conseguia acreditar naquele lugar, fiquei parada olhando para tantas naves espaciais e foguetes coloridos e mais pra frente tinha uma trilha de carrinhos e ali do outro lado também tinha um carrinho bate-bate e duas – eu disse duas – rodas gigantes e olha só o tamanho daquele tobogã todo colorido de azul amarelo vermelho eu quero ir na barca pirata!

Esperando, esperando, esperando esse trem, esse tal de ingresso, nós três corríamos em círculos e apontávamos para todos os lados. Liege parecia prestes a sair correndo para o tobogã a qualquer minuto e Heitor olhava curiosíssimo para uma lixeira em formato de arara. Eu queria ir naquele ali que girava as pessoas para o alto. Por fim o querido apareceu com os ingressos e os cinco grandes tiveram que nos segurar para que não saíssemos correndo em todas as direções.

Nós queríamos engolir todas as cores do Mutirama. Os grandes tiveram que escolher para nós o que fazer primeiro, porque estávamos os três muito encantados com todos os brinquedos. A minha querida quis ir primeiro na xícara maluca, que tremia igual o fusca vermelho do querido e fazia um barulhão mais alto que o da batedeira da vovó. Depois a Liege inventou de ir na barca pirata, e o coitadinho do Heitor ficou verde de medo, enquanto ela se divertia balançando os bracinhos brancos para o alto. O querido resolveu que ia todo mundo para o carrinho bate-bate, e eu, é claro, arranjei briga com um dos meninos que estavam brincando.

Tudo era lindo e colorido, os cavalos do carrossel eram de verdade e o voo do foguete chegava ao sol lá no céu tão azul e voltava em segundos. Eu vi o mundo todo do alto da roda gigante prateada e desci o tobogã cinco vezes, todas elas num dos escorregadores vermelhos. Heitor só conseguiu ir sozinho quando a querida e a outra grande viraram de costas para ele. Eu me divertia tanto, mal esperava o que estava por vir.

Mas nem pensar, justo esse, Paulo, Qual o problema, Tio Paulo eu que não vou nesse aí porque se não eu não durmo de noite, Olha o Heitor também não vai ele é muito medroso, Tá me dá aqui a menina.

O querido pegou a minha mãozinha com sua mão enorme e forte e me levou em direção a um lugar diferente, que não parecia com uma aventura espacial. Não vou sentir um ventinho gostoso no rosto como eu senti no tobogã, pensei, olhando para o lugar fechado, escuro e sem cor para onde ele me levava. Os monstros desenhados nos carrinhos não pareciam monstros de outra galáxia. Não vi crianças da minha idade na fila, mas como o querido queria me levar, não falei nada, apenas perguntei que era aquilo. Em resposta, ele deu um sorriso daquela cor que só ele tinha e disse, chouriço procê levar pro teu serviço.

O carrinho começou a andar, tremendo como a xícara maluca, mas devagar como eu nunca tinha visto antes, fantasmagoricamente. Ao contrário do que eu pensei, havia sim um ventinho frio soprando nas minhas bochechas e afastando minha franjinha loira do rosto. As luzes verdes e vermelhas brilhavam, iluminando muito mal uns monstros que pareciam ter saído da Caverna do Dragão. Feios, muito feios, de assustar. Vi uma aranha no teto e logo depois senti uma cosquinha nas costas: será que ela havia pulado em mim? A aranha subiu em mim, papai, eu disse a ele, rindo, verde das luzes.

Foi aí que eu vi que tudo ali dentro se mexia: as teias de aranha feitas de fumaça branca, as paredes escuras de tijolos podres (seriam de mentira?), e os monstros. Eram tão grandes! Tinha um do tamanho do querido, mas todo peludo e com uma cara de macaco misturada com morcego, com uns dentes amarelos e gigantescos e pontudos, e o vento foi ficando mais frio e esbranquiçado, os sons do lugar cada vez mais secos e da cor do medo, fui arregalando os olhos, e eu quase morri quando o querido disse, fazendo cosquinha na minha barriga, buuuuu!

Quase morri. Quase morri de tanto gargalhar minha gargalhada multicor.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

O grande mal feminino

Vou relevar o fato de que Gabriel García Márquez já fez a revelação que estou prestes a fazer, levando em conta que ele citou isso rápida e furtivamente em um de seus livros, mas não dissertou muito sobre o assunto. Às outras mulheres, peço o mais desvergonhado dos perdões, avisando já de antemão que vou contar ao mundo (ou pelo menos aos meus pobres leitores) um dos maiores segredos femininos.

De todos os sentimentos difíceis de aguentar sentir, existe um que é insuportável para todo o sexo feminino. Parece que o coração e os pulmões e a traquéia se enchem de um veneno grosso igual petróleo e doído que nem uma injeção que não acaba e não para de doer. Uma dor praticamente física, pois provoca uma falta de ar desesperadora que nem a maior das hiperventilações resolverá na hora. E parece que nunca vai acabar, a sensação de sufocamento permanece por horas. Além disso, os canais lacrimais pesam toneladas e dos olhos não sai uma gota sequer. A vontade é de chorar? É de gritar? Difícil dizer. Difícil desabafar.

Talvez eu só esteja dizendo isso porque só eu me sinta assim. Pode ser que seja coisa do meu signo, sabe, o posicionamento dos astros no dia e na hora que eu nasci determinam completamente minha personalidade e culminam nesse processo de sentir uma dor quase física quando eu sinto isso. Ou quem sabe a minha característica é o doer mais por ser orgulhosa demais para deixar a dor transparecer.

Mas eu acho que é feminino.

Eu acho que não suportar a culpa é feminino.

(E se você consegue fazê-lo, seu cromossomo X tem um defeito de fabricação. Vá a um analista e resolva já isso.)

Vejam bem: ninguém gosta de sentir culpa. Mas o insuportável da coisa só vem para as mulheres. Tão intragável que muitas choram copiosamente as lágrimas grossas que lhes pesam os olhos, outras bebem o mundo para tentar esquecer – e mesmo com toda bebedeira, lá está a culpa maldita -, outras brigam feio com alguém sem motivo algum, mas a maioria usa a saída clássica feminina: joga a culpa em alguém para não senti-la mais.

Não devem, portanto, os homens se zangarem quando suas companheiras passam a culpa da situação para eles: sim, queridos, vocês aguentam melhor. Mas é porque vocês não saberão nunca, jamais, como a culpa dói.

sábado, 11 de abril de 2009

Irene

Abriu os olhos e viu as costas do seu homem, respirando calmamente. E então lembrou da perseguição dos ladrilhos azuis. Eram nove horas, hora de ir. Levantou da cama num salto, pegou a bolsa, abriu a porta e saiu na rua como estava: nua da cintura para cima, os pés descalços. Não se incomodando com os olhares obscenos dos homens surpresos, operários trabalhando ou mendigos dorminhocos ou homens de negócios em seus carrões, ela caminhou pela calçada até o meio fio, não sentindo nada nos pés. Havia um colchão de ar para ela passar.

Viu o Ônibus Vermelho, acenou, mas o motorista explicou que não era Ônibus não. De fato, era um caminhão de dois eixos da Coca Cola que vendia sorvetes Kibon. Cedo demais para sorvete, pensou, então dá aqui a casquinha e bota uns Doritos dentro e vê se não esquece de jogar leite em cima. E então, lembrou que os Ônibus passavam na rua de baixo e passou do lado do parque de preservação do clima antártico que havia ali. Percebeu, então, que o homem de sunga que fazia cooper olhava para seus seios. Olhou para baixo e pensou que talvez fosse uma boa idéia colocar o sutiã. Procurou dentro da bolsa e o vestiu ao contrário para não dar remela.

Chegou ao ponto de Ônibus onde todas aquelas estudantes vestidas de marinheiras andavam de mãos dadas e se beijavam ruidosamente. Os olhos puxados e ousadamente maquiados de todas elas se detiveram na louca que chegava, por dois segundos, e então elas pularam dentro do Ônibus Amarelo. Ela começou a andar de um lado para o outro no ponto, respeitando os limites das suas paredes de ar, enlouquecendo porque o Ônibus não chegava logo e era tarde muito tarde.

Moço esse Ônibus vai para, Não, ele fica parado daqui duas quadras, Serve, Não serve não, Então rala daqui, diacho.

Moço esse Ônibus vai para, Sim mas ele dá uma volta enorme, Pode ser, Então seja bem vinda.

Deu oito voltas na cidade amarela laranja roxa naquele Ônibus Cor de Rosa onde só entravam oompa-loompas com chapéus de mexicano e finalmente parou no ponto que queria. Correu, subiu a colina e o penhasco e o cânion, correu como gostaria de correr em seus sonhos, mais rápido que qualquer criatura na Terra. Ainda correndo, subiu as paredes, escalou a sacada, atravessou o vidro sem ruído e entrou.

Vem deitar aqui comigo disse seu homem e ela disse espera só um pouquinho pra eu tirar a maquiagem e deitou do lado dele e dormiu.