Eu! Eu! Eu! Eu! Eu mal conseguia acreditar naquele lugar, fiquei parada olhando para tantas naves espaciais e foguetes coloridos e mais pra frente tinha uma trilha de carrinhos e ali do outro lado também tinha um carrinho bate-bate e duas – eu disse duas – rodas gigantes e olha só o tamanho daquele tobogã todo colorido de azul amarelo vermelho eu quero ir na barca pirata!
Esperando, esperando, esperando esse trem, esse tal de ingresso, nós três corríamos em círculos e apontávamos para todos os lados. Liege parecia prestes a sair correndo para o tobogã a qualquer minuto e Heitor olhava curiosíssimo para uma lixeira em formato de arara. Eu queria ir naquele ali que girava as pessoas para o alto. Por fim o querido apareceu com os ingressos e os cinco grandes tiveram que nos segurar para que não saíssemos correndo em todas as direções.
Nós queríamos engolir todas as cores do Mutirama. Os grandes tiveram que escolher para nós o que fazer primeiro, porque estávamos os três muito encantados com todos os brinquedos. A minha querida quis ir primeiro na xícara maluca, que tremia igual o fusca vermelho do querido e fazia um barulhão mais alto que o da batedeira da vovó. Depois a Liege inventou de ir na barca pirata, e o coitadinho do Heitor ficou verde de medo, enquanto ela se divertia balançando os bracinhos brancos para o alto. O querido resolveu que ia todo mundo para o carrinho bate-bate, e eu, é claro, arranjei briga com um dos meninos que estavam brincando.
Tudo era lindo e colorido, os cavalos do carrossel eram de verdade e o voo do foguete chegava ao sol lá no céu tão azul e voltava em segundos. Eu vi o mundo todo do alto da roda gigante prateada e desci o tobogã cinco vezes, todas elas num dos escorregadores vermelhos. Heitor só conseguiu ir sozinho quando a querida e a outra grande viraram de costas para ele. Eu me divertia tanto, mal esperava o que estava por vir.
Mas nem pensar, justo esse, Paulo, Qual o problema, Tio Paulo eu que não vou nesse aí porque se não eu não durmo de noite, Olha o Heitor também não vai ele é muito medroso, Tá me dá aqui a menina.
O querido pegou a minha mãozinha com sua mão enorme e forte e me levou em direção a um lugar diferente, que não parecia com uma aventura espacial. Não vou sentir um ventinho gostoso no rosto como eu senti no tobogã, pensei, olhando para o lugar fechado, escuro e sem cor para onde ele me levava. Os monstros desenhados nos carrinhos não pareciam monstros de outra galáxia. Não vi crianças da minha idade na fila, mas como o querido queria me levar, não falei nada, apenas perguntei que era aquilo. Em resposta, ele deu um sorriso daquela cor que só ele tinha e disse, chouriço procê levar pro teu serviço.
O carrinho começou a andar, tremendo como a xícara maluca, mas devagar como eu nunca tinha visto antes, fantasmagoricamente. Ao contrário do que eu pensei, havia sim um ventinho frio soprando nas minhas bochechas e afastando minha franjinha loira do rosto. As luzes verdes e vermelhas brilhavam, iluminando muito mal uns monstros que pareciam ter saído da Caverna do Dragão. Feios, muito feios, de assustar. Vi uma aranha no teto e logo depois senti uma cosquinha nas costas: será que ela havia pulado em mim? A aranha subiu em mim, papai, eu disse a ele, rindo, verde das luzes.
Foi aí que eu vi que tudo ali dentro se mexia: as teias de aranha feitas de fumaça branca, as paredes escuras de tijolos podres (seriam de mentira?), e os monstros. Eram tão grandes! Tinha um do tamanho do querido, mas todo peludo e com uma cara de macaco misturada com morcego, com uns dentes amarelos e gigantescos e pontudos, e o vento foi ficando mais frio e esbranquiçado, os sons do lugar cada vez mais secos e da cor do medo, fui arregalando os olhos, e eu quase morri quando o querido disse, fazendo cosquinha na minha barriga, buuuuu!
Quase morri. Quase morri de tanto gargalhar minha gargalhada multicor.

Vou relevar o fato de que Gabriel García Márquez já fez a revelação que estou prestes a fazer, levando em conta que ele citou isso rápida e furtivamente em um de seus livros, mas não dissertou muito sobre o assunto. Às outras mulheres, peço o mais desvergonhado dos perdões, avisando já de antemão que vou contar ao mundo (ou pelo menos aos meus pobres leitores) um dos maiores segredos femininos.