quarta-feira, 10 de setembro de 2008

A Rita fez isso mesmo.

Eu levei teu sorriso, no meu sorriso o teu assunto. Levei junto comigo o que te é de direito, e arranquei-te do peito, e tem mais. Levei meu retrato, meu trapo, meu prato, que papel! Uma imagem de São Francisco e um bom disco de Noel. Eu matei nosso amor de vingança, nem herança deixei. Não levei um tostão porque não tinha não, mas causei perdas e danos. Levei os teus planos, teus pobres enganos, os teus vinte anos, o teu coração.

E além de tudo te deixei mudo um violão.

domingo, 1 de junho de 2008

Patética parede


Eduarda era assim, magrinha, pequena, franzina, feia. Não tinha nada de especial no olhar, um cabelo feio e mal-cuidado. Tinha um dente um pouco torto e as orelhas muito pequenas. Usava um casaco cor-de-palha por cima das roupas simples e escuras. Assim como o casaco de todos os dias, usava a mesma expressão. Seu semblante era sempre muito calmo, nada nem ninguém conseguia alterá-lo.



Tocava saxofone em um bar chamado Cabaret. Não era um cabaré, nem nunca seria, mas tinha esse nome. Era apaixonada pelo irmão do patrão, que aparecia por lá de vez em quando. Ela tirava o casaco quando ele assistia ao show de jazz. Queria que ele olhasse para seus braços. Não sabia bem seu nome, mas o sobrenome deveria ser Gomes, como o do patrão.


Eduarda tinha uma historinha com o pianista, o Grilo. Era um homem excêntrico, magro, de cabelos cacheados divididos ao meio, óculos redondos. Usava sapatos horrorosos, mas ela não se importava. Uma ou duas vezes por semana, ela dava para ele. Grilo se arrastava por Eduarda, sem dizer palavra. Depois, beijava-lhe os lábios levemente e saía com um adeus grave como suas notas no piano.


Morava com a avó. Dona Santa queria que ela fosse manicura, mas ela pela primeira (e única) vez na vida bateu o pé e disse que ia ser saxofonista e pronto e acabou. Imagine só, ela, manicura! Desastrada e distraída como era, não poderia nunca tocar as mãos de alguém sem machucá-las. Suas unhas eram muito mal cuidadas, roídas. Dona Santa ficou uma arara. Reclamava quase todos os dias e Eduarda dizia, sim, vovó, acabou que a senhora estava certa. Ser manicura deve ser melhor mesmo.


Não tocava bem o saxofone, mas como não atrapalhava a banda, o patrão foi permitindo que ela ficasse. Eduarda parecia não ter alma. Todos os saxofonistas que o Gomes já vira se curvavam sobre o instrumento, apertavam os olhos, sopravam o instrumento com força. Eduarda ficava ereta, com os olhos abertos e a mesma cara calma. Cara de parede, segundo Dona Santa. Havia uma pilastra de madeira no canto esquerdo do palco, e era por ali que ela ficava. Trabalhava lá há quatro anos e sempre tocara no mesmo canto, protegida pela promessa da pilastra.


Um dia, o irmão do Gomes foi ao Cabaret acompanhado por três moças. Eduarda colocou na cabeça que eram irmãs e primas. A mais velha poderia ser a mãe? Gostou de fantasiar em ter cunhadas e sogra tão bonitas e bem cuidadas. Quem sabe elas cuidariam dela. Não a deixariam envelhecer mais. Eduarda aparentava ser quinze anos mais velha. As três moças do irmão do Gomes seriam sua fonte da juventude.


Naquela noite, o Grilo sorriu para ela antes do adeus grave como suas notas no piano.


Contou para Dona Santa das três moças. A avó disse que ela era muito burra mesmo. E ainda disse, você podia até fisgar o homem, se não fosse tão feia. Mas você é mulher mexida, e homem nenhum quer mulher mexida.Eduarda respondeu que ele gostava dos seus braços.


Você não diz nada de inteligente, resmungou a velha.


Tempos depois o Gomes chegou exultante ao Cabaret. Terça-feira, pensou Eduarda. Ele deveria estar de mau humor. Mas o Gomes sacudia um envelope nas fuças dos músicos. Meu irmão vai se casar com uma moça bonita, inteligente, de boa família. E vocês vão tocar na festa. Preparem algo especial.


Não doeu. Eduarda fez que sim e se concentrou. Tocou na festa como se fosse uma terça qualquer no Cabaret. Manteve a cara de parede. Dona Santa passou dois meses fazendo cara de eu-te-avisei.


Naquele dia, antes do beijo leve e do adeus grave como suas notas no piano, Grilo olhou firme para Eduarda. Ela queria perguntar tanta coisa. Queria saber se o nome dele era Grilo mesmo, se ele gostava dela, se ele era casado, se ele sabia que ela amava o irmão do Gomes, se ele achava que ela tinha cara de parede. Abraçou-o com as pernas e disse, não vai, fica, fica. E começou um choro convulso, um choro acumulado por anos atrás da cara de parede. Não conseguia parar, mal respirava, apenas chorava, chorava, chorava. Parecia que nunca mais pararia de soluçar, parecia que ia gastar toda a água do corpo naquelas lágrimas.


Não, vai, fica. Fica. Eu quero saber de tantas coisas. Fica.


Mas você é uma besta mesmo, disse Dona Santa.


Grilo continuou olhando firme. Ergueu as sobrancelhas. Beijou-lhe a testa levemente, disse um adeus grave como suas notas de piano e foi embora.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

O corpo e a música

Início de século tem um clima de dúvida. Para onde iremos? O que vai acontecer conosco? Quais serão as novas invenções e tendências? O início do nosso século apresenta um algo a mais, um sabor amargo de estagnação. Além de ter dúvidas, as pessoas tendem a não crer que algo possa melhorar. Nas artes, acredita-se que já se explorou tudo que é possível e agora vêm as obras vazias e repetidas, as músicas compostas em cinco minutos.

Existem no Brasil (e ouso dizer, no mundo) movimentos de busca de novas formas de fazer música. Aproveita-se tudo que os instrumentos musicais podem oferecer: os sons tradicionais e até mesmo mecânicos que podem ser tirados deles. Músicas são inventadas e reinventadas. Tudo com a qualidade e a alegria que só os espíritos jovens têm.

O grupo Barbatuques, de São Paulo, me atrai de forma especial. Percussionistas corporais, fazem música com sons do corpo. Usam desde o mais baixo murmúrio até o mais alto bater de pés, das tradicionais palmas até os surpreendentes vácuos de boca. É um movimento extremamente carnal e irreverente, envolvendo um vasto número de artistas e a platéia de uma forma que poucos conseguem. A empolgação do público é quase palpável, os encostos das cadeiras não são usados, é impossível não querer bater palmas ou aprender a fazer todos os sons divertidos usados. O palco vira uma festa, uma desordem extremamente organizada e planejada.

São sons que saíram do improviso e se tornaram obras únicas. As músicas transportam o público para uma aldeia africana, para o sertão nordestino ou para uma mata brasileira. Carregadas de folclore e tendências tribais, são de tirar o fôlego.

Os artistas do Barbatuques mostram que música instrumental pode ser empolgante e que a música brasileira tem futuro. As melodias novas chamam tanta atenção quanto as antigas. São novas formas de interpretar a música, novas formas de usar o corpo. É o futuro se fazendo presente aos olhos (e ouvidos) atentos.

Across the Universe

À primeira vista, parece tão clichê quanto filme de medievo com o Santo Graal no meio. Anos 60, Guerra do Vietnã, Martin Luther King, passeatas pacifistas, drogas, Nova York, Beatles e adivinhe só – Liverpool. Across the Universe, no entanto, vai além e consegue inovar.


A diretora Julie Taymor, de Frida, usa e abusa de seu tom idílico nesse filme. Consegue fazer seqüências fabulosas com determinadas músicas, como em Because, mas carrega na tinta em outras, como em I Want to Hold Your Hand (mais nonsense e meloso impossível) e em Being For The Benefit of Mr. Kite! (o que essa seqüência tem de bom é só a referência aos Malvados Azuis).


No geral, o uso da obra dos Beatles é bem feito. With a Little Help From My Friends ficou muito divertido e, de certa forma, lembra os vídeos e fotos da primeira fase da banda. Let It Be realiza a proposta de ser cantada por negros de igrejas protestantes dos Estados Unidos, além de ter ficado de arrepiar. She’s So Heavy é uma das melhores: bem executada, engraçada (não tem como não rir do Tio Sam cantando) e mais importante, muito profunda. I’ve Just Seen A Face e Come Together lembram ao espectador a estrutura clássica de um musical sem exagerar.


Além das músicas cantadas, há muitas referências às músicas dos Fab Four, a começar com os nomes dos personagens: Jude, Lucy, Max, Prudence e Dr. Robert. Sadie (que é muito sexy) é uma homenagem a Janis Joplin e Jo-Jo, a Jimi Hendrix. Nas falas também é possível notar flashes de determinadas músicas, como When I’m 64, She Came In Through The Bathroom Window e Maxwell’s Silver Hammer. O filme também nos leva ao Cavern Club no começo e faz uma Rooftop Gig no final: começa e termina como os Beatles.


O trio principal é fantástico: não são típicos hippies dos anos 60, são simplesmente jovens que fugiram de suas realidades insatisfatórias. Vivem em uma comunidade alternativa, mas levam vidas relativamente normais. Existe, no entanto, referência aos hippies, envolvimento dos personagens com drogas, psicodelia, Guerra do Vietnã e as passeatas contra esta.


E sim, você viu Salma Hayek em Happiness Is a Warm Gun. Ela pediu à diretora um bico nesse filme. Você também viu Bono Vox atuando muito bem como Dr. Robert e cantando I Am The Walrus muito mal. Fico pensando onde Julie Taymor estava com a cabeça quando o chamou para cantar uma das melhores músicas dos Beatles.


Com uma direção de arte fantástica (repare a produção dos dois bailes do início do filme), uma fotografia linda, atuações de muita sensibilidade e uma direção adequada, Across The Universe peca pelo roteiro fraco. Não prende completamente a atenção do espectador e trata de se esconder atrás da trilha sonora. É, porém, uma história bacana, digna de ser vista, até mesmo por aqueles que não são tão fãs de Beatles.


Porque os fãs vão querer assistir várias vezes.




sábado, 19 de abril de 2008

Mãe Coragem e seus filhos


A peça de Brecht está no Centro Cultural do Banco do Brasil até dia 4 de maio. Vale a pena conferir. Tão linda, tão linda, me doeu inteirinha. Não tenho o que comentar. Vou dizer o quê? Que a guerra é horrível mas dá lucros? Que eu gosto é de personagens humanas, com defeitos e demônios, como as apresentadas? Que é inconcebível que uma família bonita se esfacele com uma guerra? Isso é me limitar ao lugar-comum, às impressões que todos temos. Essa peça é uma jornada diferente para cada um. Então vá conferir você, não espere que eu faça uma resenha. Não sou boa o suficiente.

sábado, 12 de abril de 2008

Pra não dizer que não falei da luta - parte dois.


Não posso e nem vou negar a espontaneidade da invasão à Reitoria da UnB. Ouço dizer que foi assim, decidido em assembléia e o pessoal foi lá e fez. Que seja. A segunda invasão também, pelo que ouvi, foi ainda mais espontânea. Por mim, tudo bem. Não aderi ao movimento desde o início, por não estar, confesso, inteirada dos acontecimentos acerca do Reitor e das fundações, e muito menos a respeito das questões políticas que assinalaram o movimento.

As coisas mudaram de figura na segunda, dia 7. Fui à Reitoria para não dizer que não tinha ido, e vi o quanto o movimento estava organizado. O clima calmo, gostoso dentro da reitoria. Tudo bem limpo e organizado. Ninguém tenso com a perspectiva da chegada da polícia. Gostei e resolvi me informar.

Já na quarta, 9, fui à assembléia para votar as questões em pauta. Não fui só para apoiar o movimento, mas também para votar contra determinadas coisas que eu era contra. Não topei fazer greve. Não gostei de ter visto um garoto com adesivo de partido na camiseta, espero que tenham pedido para ele tirar. Mas saí satisfeita de lá. Não fiz a menor diferença ali, mas fez toda diferença para mim.

Na quinta, 10, por insistência de uma amiga, a Thaís, fui denovo ao CAREI (hêhê), com ela e outro amigo, o Braitner. Saímos de lá com cartazes que espalhamos pelo ICC Norte. É uma sensação engraçada, colar cartazes. O pessoal te olhando, você pensando no que está colando naquela parede. E em quanto tempo aquele cartaz sem autorização de ser colado vai ficar ali.

Bom, na sexta, 11, eles ainda estavam lá. E rolou uma passeata pela universidade todinha (e isso inclui, pasmem, FA e FT), chamando o pessoal para aderir à paralisação. Foi um barato, uma delícia. Minhas colegas ficaram roucas. Eu fiquei com as palmas das mãos insensíveis, de tanto bater palma. Mas foi muito bacana mesmo, estar em uma coisa assim, e ter noção do que se está gritando (isso é MUITO importante).

Se eu quero matar o Borat Tropical? Pode crer. Um palhaço desses acaba com a imagem do movimento. E ainda sai na capa de todos os jornais.

Aí o vice renuncia, o reitor renuncia. Me corrijam se eu estiver errada, mas deve ter sido a única vez na história mundial que os estudantes pressionam um reitor para sair e ele sai. É uma sensação engraçada, um orgulhinho. Uma satisfação, esperança de mudança.

Ontem teve a coletiva de imprensa do novo reitor. Me pareceu um cara disposto a dialogar. Vamos ver no que dá.

Qualquer coisa, os alunos ocupam a Reitoria denovo, oras.

Não?

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Pra não dizer que não falei da luta


Eu, ali, de calça bege, no N da UNB.

Depois falo mais da ocupação e da passeata de hoje.