domingo, 1 de junho de 2008

Patética parede


Eduarda era assim, magrinha, pequena, franzina, feia. Não tinha nada de especial no olhar, um cabelo feio e mal-cuidado. Tinha um dente um pouco torto e as orelhas muito pequenas. Usava um casaco cor-de-palha por cima das roupas simples e escuras. Assim como o casaco de todos os dias, usava a mesma expressão. Seu semblante era sempre muito calmo, nada nem ninguém conseguia alterá-lo.



Tocava saxofone em um bar chamado Cabaret. Não era um cabaré, nem nunca seria, mas tinha esse nome. Era apaixonada pelo irmão do patrão, que aparecia por lá de vez em quando. Ela tirava o casaco quando ele assistia ao show de jazz. Queria que ele olhasse para seus braços. Não sabia bem seu nome, mas o sobrenome deveria ser Gomes, como o do patrão.


Eduarda tinha uma historinha com o pianista, o Grilo. Era um homem excêntrico, magro, de cabelos cacheados divididos ao meio, óculos redondos. Usava sapatos horrorosos, mas ela não se importava. Uma ou duas vezes por semana, ela dava para ele. Grilo se arrastava por Eduarda, sem dizer palavra. Depois, beijava-lhe os lábios levemente e saía com um adeus grave como suas notas no piano.


Morava com a avó. Dona Santa queria que ela fosse manicura, mas ela pela primeira (e única) vez na vida bateu o pé e disse que ia ser saxofonista e pronto e acabou. Imagine só, ela, manicura! Desastrada e distraída como era, não poderia nunca tocar as mãos de alguém sem machucá-las. Suas unhas eram muito mal cuidadas, roídas. Dona Santa ficou uma arara. Reclamava quase todos os dias e Eduarda dizia, sim, vovó, acabou que a senhora estava certa. Ser manicura deve ser melhor mesmo.


Não tocava bem o saxofone, mas como não atrapalhava a banda, o patrão foi permitindo que ela ficasse. Eduarda parecia não ter alma. Todos os saxofonistas que o Gomes já vira se curvavam sobre o instrumento, apertavam os olhos, sopravam o instrumento com força. Eduarda ficava ereta, com os olhos abertos e a mesma cara calma. Cara de parede, segundo Dona Santa. Havia uma pilastra de madeira no canto esquerdo do palco, e era por ali que ela ficava. Trabalhava lá há quatro anos e sempre tocara no mesmo canto, protegida pela promessa da pilastra.


Um dia, o irmão do Gomes foi ao Cabaret acompanhado por três moças. Eduarda colocou na cabeça que eram irmãs e primas. A mais velha poderia ser a mãe? Gostou de fantasiar em ter cunhadas e sogra tão bonitas e bem cuidadas. Quem sabe elas cuidariam dela. Não a deixariam envelhecer mais. Eduarda aparentava ser quinze anos mais velha. As três moças do irmão do Gomes seriam sua fonte da juventude.


Naquela noite, o Grilo sorriu para ela antes do adeus grave como suas notas no piano.


Contou para Dona Santa das três moças. A avó disse que ela era muito burra mesmo. E ainda disse, você podia até fisgar o homem, se não fosse tão feia. Mas você é mulher mexida, e homem nenhum quer mulher mexida.Eduarda respondeu que ele gostava dos seus braços.


Você não diz nada de inteligente, resmungou a velha.


Tempos depois o Gomes chegou exultante ao Cabaret. Terça-feira, pensou Eduarda. Ele deveria estar de mau humor. Mas o Gomes sacudia um envelope nas fuças dos músicos. Meu irmão vai se casar com uma moça bonita, inteligente, de boa família. E vocês vão tocar na festa. Preparem algo especial.


Não doeu. Eduarda fez que sim e se concentrou. Tocou na festa como se fosse uma terça qualquer no Cabaret. Manteve a cara de parede. Dona Santa passou dois meses fazendo cara de eu-te-avisei.


Naquele dia, antes do beijo leve e do adeus grave como suas notas no piano, Grilo olhou firme para Eduarda. Ela queria perguntar tanta coisa. Queria saber se o nome dele era Grilo mesmo, se ele gostava dela, se ele era casado, se ele sabia que ela amava o irmão do Gomes, se ele achava que ela tinha cara de parede. Abraçou-o com as pernas e disse, não vai, fica, fica. E começou um choro convulso, um choro acumulado por anos atrás da cara de parede. Não conseguia parar, mal respirava, apenas chorava, chorava, chorava. Parecia que nunca mais pararia de soluçar, parecia que ia gastar toda a água do corpo naquelas lágrimas.


Não, vai, fica. Fica. Eu quero saber de tantas coisas. Fica.


Mas você é uma besta mesmo, disse Dona Santa.


Grilo continuou olhando firme. Ergueu as sobrancelhas. Beijou-lhe a testa levemente, disse um adeus grave como suas notas de piano e foi embora.

2 comentários:

André Luiz disse...

Gostei.

Anônimo disse...

intenso,
arriscaria até dizer, tocante
;)